um mês
Janeiro chegou cheio de promessas, como sempre chega. A gente abre o calendário novo com uma esperança quase infantil, achando que basta virar a folha para que a vida também vire.
Fevereiro trouxe dias mais curtos e um calor persistente, e as memórias ainda estavam frescas: o cheiro do lugar onde estivemos, a música que tocava no carro, as conversas que pareciam eternas.
Março começou a arrastar as cores do verão para tons mais pálidos, e percebi que certas lembranças já vinham ficando embaçadas nas bordas. Aquelas cenas que antes me faziam sorrir ou doer o peito começaram a perder detalhes — as palavras exatas, o tom da voz, até o brilho dos olhos naquela noite.
Em abril, choveu muito. E a água levou embora mais fragmentos do passado. Uma fotografia mental se desbotou. Uma risada que ecoava fácil na minha memória virou só silêncio.
Maio foi cinza, feito fumaça. As memórias que resistiam começaram a se dissipar mês após mês, feito poeira que a gente tenta segurar entre os dedos. Coisas que jurava que jamais esqueceria — datas, lugares, sentimentos — iam se dissolvendo no fundo da mente.
Junho trouxe frio, e junto dele a certeza de que tudo passa. Até aquilo que parecia tatuado no peito. Até aquela dor que eu tinha certeza que nunca ia me deixar.
E agora, cada mês vira apenas mais um no calendário. As páginas vão sendo arrancadas, e no lugar das memórias antigas, fica só um espaço em branco. Pronto para ser preenchido por novas histórias, novos rostos, novos começos.
Talvez seja assim que a vida nos ensina a seguir: apagando devagarinho o que nos faria ficar presos. Dissolvendo lembranças, mês após mês, até que sobre só o presente.
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