Viagem
Ele tirou o relogio. Foi a primeira coisa que fez depois de se sentar comigo no velho sofá. Deixou o celular na mesa de centro, ao lado da taça de vinho... não precisaria dele tão cedo. Não precisaria vigiar as horas, o tempo já nao importava mais. A chuva, o frio lá fora... nada disso importava.
Enquanto ele esticava o braço para alcançar sua taça, senti sua respiração quente perto da minha bocheca...
Corei.
Ele percebeu, e riu timidamente do meu pequeno desconforto. Estava claro que eu me sentia desconfortavel perto daquele homem todo que ele era. Um conjunto real de beleza, simpatia e doçura - sim, um armário de homem com seus quase dois metros de altura e um coração que ainda assim não cabia no peito. Por isso ele transborava.
Meus olhos fixaram nos seus enquanto ele lembrava com empolgação da sua última viagem pra India. Viajei com ele a cada história que me contava.
Mas aí, eu desci da fantasia...
Como poderia eu, oferecer qualquer coisa do meu todo-bagunçado-fodido-mundo, praquele homem que ja havia vivido tanta coisa legal, tantos lugares magicos, pessoas interessantes...? Quem seria eu nessa historia? A maluca varrida que ele provavelmente achou que era diferente... talvez mais magra, um cabelo mais hidratado, uma pele mais sedosa... mais parecida com aquela das fotos. Me enfiei no meu mundo secreto obscuro particular, pensando que eu poderia ter dado um jeito nas olheiras...
Foi aí que ele me buscou. Segurou minha mão e eu senti meu corpo tremer. Voltei pro momento e num estalo percebi que ele sabia que eu não era só a garota das fotos. E eu me lembrei sou muito mais que a casca, que o superficial.
"Sei que você é bem mais do que meus olhos podem ver, e olha já gosto muito do que eu vejo" - foi o que ele disse.
(Acho que ele consegue também ler pensamentos)...
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