Joelho ralado
Ele era só um menino. Não sei precisar a idade, ainda mais
depois de tanto tempo. Hoje ele é um homem, mas na nossa história ele era só um
menino.
Ele vivia uma vida feliz e mentirosa. Tinha uma mãe amorosa
que fazia de tudo pra ele inclusive culpá-lo pela sua vida desgraçada. Seu pai
era um alcóolatra sedutor. Pagava de bom pai, mas no fundo era um nada, um
merda, um zé ninguém jogado nos bares da vida.
Quando ele era menino, ninguém o ensinou a andar de
bicicleta, mas até aí tudo bem. Os seus amigos o incentivavam e assim ele
conseguiu. Aprender não foi difícil, ele era um menino dedicado e esforçado.
Não desistia fácil.
O problema eram os tombos... O menino se via ralado diversas
vezes, o joelho ardia no banho e mesmo se dando bem com a bicicleta, ele sempre
achava que não estava bom o suficiente. Seus cotovelos também o acusavam.
Chegava em casa, e queria logo contar a novidade pro pai. Opa! Ele não estava
lá... nunca esteve, que novidade! Chegava em casa e queria que a mãe cuidasse
do seu machucado enquanto ele contava das façanhas que tivera feito com a sua
bike. Ela mal olhou pra cara encardida do seu menino, apenas berrou sobre a
sujeira de suas roupas e já começou o discurso sobre a droga da vida que levava
graças a ele. Ele era só um menino. Ela não se lembrava disso, na maioria das
vezes. O menino cresceu com os joelhos ralados doendo no banho. Seus joelhos só
não doíam mais do que a dor da rejeição que sofreu por mais de vinte e cinco
anos, dentro e fora de casa. A rejeição de quem esteve sempre presente, e de
quem só esteve presente na sombra das suas dores. Doía.
Ainda dói, mais que os joelhos. Essa dor nunca passa.
Atravessa seus ossos, atormenta sua cabeça...
Hoje ele se parece com um homem. Mas eu só enxergo um
menino. Um menino com os dois joelhos ralados, sem ninguém pra assoprar o Merthiolate.
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