A outra


Enquanto a camisa cinza estava jogada num canto do quarto, as meias foram parar debaixo da cama. Recolhi o que precisava para me recompor e me retirei silenciosamente.
Sentei naquele sofá velho para calçar a bota e me pus a reconstituir as cenas da noite anterior. De início, não lembrei de muita coisa... bebemos demais.
O que foi que eu fiz? Minha nossa... fiz besteira.
Minhas cabeça girou e meu estômago deu uma pirueta com a mistura do álcool, confusão e culpa.
Não acredito que me permiti voltar praquela cama. A mesma cama onde nos amamos a primeira vez. A mesma cama onde nos amamos várias outras vezes. A mesma cama...
O que acontece agora? Vou pra minha casa como se nada tivesse acontecido?
Uma parte de mim queria sair fugido dali como eu sempre fazia, afinal. Ja a outra parte... bem, a outra queria curtir só mais um pouquinho aquele momento. Deliciar a sensação do êxtase que ainda permeava meu corpo. Verificar rapidamente se o meu cheiro havia ficado no seu travesseiro, so pra imaginar se ela o sentiria quando acordasse.
E depois que ela acordasse? O que aconteceria? Meu estômago deu mais uma leve embrulhada so de pensar nisso. Vê-la acordar... Ela sempre acordou primeiro. Sempre me esperou com cafe - café esse que eu nunca tomei.
Nunca soube lidar com esse negócio de intimidade...
Meu telefone apita: mensagem dela. Da outra. ou melhor... Da que nao é a 'outra'. Ou será que é, e só agora eu me toquei?
Não tenho coragem de abrir a mensagem, como se ela fosse me ver ali, do outro lado da tela. De qualquer forma, eu nao conseguiria disfarçar... Nunca fiz nada direito. Nem mentir.
Só sei mentir pra mim mesmo, achando que está tudo bem e vestindo uma máscara que nem ao menos me serve.
Aquela que dorme... eu não a deixei entrar a fundo nas minhas neuras, por mais que ela tentasse me ajudar. Melhor assim.
Melhor.
Respiro fundo.
Pego as chaves do carro e a minha cara de pau. Abro a mensagem e também a porta.
Não vou ficar pro café, de novo. Nunca vou ficar.

Comentários

Postagens mais visitadas