Me esqueça. Ou não

Não adianta dizer que vai me esquecer, que acabou, que já deu. Não se desgosta de um dia pro outro, muito menos por birra. Se você quer isso, começa por esquecer o caminho da minha casa. Impossível, não é? Tanto que até meio bêbado você acerta. Como no sábado passado em que pediu abrigo. Choroso, me encontrou triste também e sem saber se abria primeiro os braços, a porta de casa ou do carro – pra você ir embora. Ou você acha que é super tranquilo te ouvir dizer tanta bobagem e sorrir como se nada tivesse acontecido.

E eu não queria me aproveitar da situação.

Não adianta dizer que vai esquecer todas as noites que tivemos juntos vivendo outras noites por aí. Amarrotar lençóis só te fará comparar o prazer que alguém te der com o que eu já te dei. E mesmo que alguém me supere, você vai ter de conviver com o fato de que eu sou parâmetro pra diversas outras coisas. Até mesmo para os absurdos que tive de ouvir da sua boca, que tive aguentar das suas atitudes. Das incredulidades que tive de simplesmente abanar a cabeça em consentimento, ainda que o sentimento fosse totalmente ao contrário.
Só que eu estou te dando forças, ok? Estou compactuando com a sua sanidade mental e não vou ficar tecendo motivos, dizendo porquês ou pintando o nosso passado nos seus olhos só para tentar te convencer de que ainda teríamos uma longa estrada. Não vou assumir os seus erros e dizer que você não teve culpa. Até porque, quando alguém pisa na bola, existe um motivo. Não é possível que você tenha deslizado sem que eu tenha deixado uma ponta solta, um carinho por fazer, uma carência mal resolvida ou um elogio que faltou ser dito. Um afago no seu ego que não veio
E que agora parece irrelevante.
Pode ir. Sei que existirão outras dez, mil, dez milhões de pessoas interessadas em te fazer feliz. Fala com uma cartomante, pede pra cigana ler as linhas da palma da sua mão já tão acostumadas a agarrar outras costas, continua usando um desses aplicativos recheados de promessas ilusórias e futuros promissórios. Sempre te disse que nunca haveria correntes prendendo os seus pés: uma das coisas mais lindas que aprendi a observar era o teu voo por aí. E você ainda tem a cabeça tão cheia de sonhos.
Você não vai me esquecer e isso não é uma praga, meu bem. Logo eu, que teria todos os motivos pra te riscar da minha vida, vou deixar a fresta pra você ver que teu lugar ainda poderia ser aqui, mas sei que depois desse inverno alguma coisa estará guardada de bom pra mim.

E outra pessoa saberá me guardar, como você não quis.
Boa sorte tentando me esquecer

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